Final do ano passado minha mãe resolveu que ia mandar pintar a casa por dentro e por fora. Com isso foi aquela bagunça, teve que tirar móveis do lugar, coisas da estante, etc. Aproveitando que já estava uma bagunça, resolvi que ia fazer uma faxina no meu quarto. Guardo muito papel, apostilas, livros. Ia ver o que realmente precisava guardar e o resto ia jogar fora ou doar.
Mexendo nas minhas coisas, encontro uma caixa no qual guardava lembranças. Me veio tantas lembranças, coisas boas e ruins. Nisso acho uma poesia, escrita pelo Maykon.
O Maykon era de outra cidade. Ele veio morar na minha cidade para trabalhar para um vereador muito amigo do meu irmão e da família. Nisso meu irmão e o Maykon ficaram muito amigos Não sei ao certo como se conheceram, mas creio que foi nas campanhas políticas. Com isso meu irmão o chamou para morar em casa. Dava uma ajuda em dinheiro e ficava morando lá. Ele foi. Morou um tempo com a gente.
Nesse tempo fui nutrindo um sentimento forte por ele, mas nunca tive coragem de falar, guardava pra mim. Tinha uma grande admiração por ele. Era um rapaz bonito, que tinha ideais, que queria e lutava por um mundo melhor. O tempo que morou aqui ajudou a organizar grêmios estudantis em alguns colégios. Mas também tinha defeitos, ele era o maior galinha. Namorava duas ao mesmo tempo, sem contar outras que ele ficava. Aí que perdi a coragem mesmo de falar. Não vou correr atrás de um galinha assim.
Passando um tempo fui achando ele estranho e andando com pessoas nada confiáveis. Um dia não dormiu em casa e apareceu no outro dia mancando. Achei estranho, mas não fiquei questionando. Contou uma história para o meu irmão e ficou naquilo.
Não demorou muito, ele voltou para a cidade dele. Até hoje não sei o verdadeiro motivo que o levou a voltar pra sua cidade, se foi mandado embora ou quis voltar por conta própria.
Depois que foi embora, andou ligando umas duas vezes lá em casa pra saber como estavam as coisas. Depois disso não ligou mais e não soube mais notícias.
Sempre lembrava dele, nunca o esqueci. Tinha uma saudade, vontade de ver ele, saber como estava, se estava com alguém. Um dia tomei coragem e tentei ligar num número que ele havia deixado, mas deu inexistente.
Na véspera de última campanha pra presidente resolvi tentar achar algum contato dele . Meu irmão era candidato a deputado, talvez pudesse dar uma força em sua cidade pedindo uns votos pra ele. Mas na verdade isso era desculpa pra poder falar com ele. Liguei pra um médico que foi vereador na cidade dele e uma vez candidato a deputado no qual ele trabalhou pra ver se tinha o contato dele, mas não conseguia falar com o médico e a moça que atendeu disse não conhecer o Maykon.
Não desisti. Resolvi buscar pela internet. Digitei o nome dele no google, mas não aparecia nada, no facebook a mesma coisa e em nenhuma outra rede social, nada dele. Achei estranho, pois é difícil hoje alguém não ter nada na internet, ainda mais jovem. Aí resolvi digitar o sobrenome dele no facebook se achava alguém da sua família.
Achei várias pessoas e nisso achei uma mulher com o mesmo sobrenome dele com o nome Raquel. Quando olhei o seu face, já me simpatizei com ela. Tem os mesmos pensamentos e ideais que os meus, gosta de gatos, etc. Aí resolvi mandar mensagem pra ela se o conhecia. Ela me respondeu que era sobrinho dela, (na verdade do seu marido, que é irmão do pai dele) e disse que ele havia morrido fazia uns cinco anos. Fiquei chocada. Não esperava por essa notícia. Não disse do que ele morreu e não quis ficar questionando. Fiquei pensando que as vezes não queria falar. Então deixei pra lá, mas sempre na curiosidade de saber do que havia morrido.
Quando, mexendo em minhas coisas encontrei a poesia escrita por ele, resolvi tirar foto do papel e postar no face o que havia encontrado e marquei ela pra ver. Comentou que havia ficado muito emocionada, ainda mais da forma que ele havia morrido. um rapaz tão novo. Fiquei ainda mais curiosa pra saber como ele havia morrido e então resolvi perguntar pra ela. Foi aí que ela me contou que ele havia sido assassinado por traficante, havia se enfiado em drogas e que até hoje a família não conseguiu descobrir quem o matou.
Fiquei mais chocada ainda e comecei a me sentir mal. Deveria ter falado mais com ele, tentado ajudar procurado saber o que estava passando quando comecei a notar que estava diferente e andando com pessoas não muito confiáveis. Ela me contou que a família não dava muito apoio e ele se afastou e na época que ele morava em casa percebia que ele era meio carente de família e sempre reclamava da mãe.Vivia elogiando a comida da minha mãe e falava que meus pais era como pais pra ele.
Me arrependi por nunca ter dito nada a ele. Poderia até ter ouvido um não, mas ele saberia do que estava sentindo. Podia ter tentado ajudar. Por mais que ele fosse um galinha, era uma grande pessoa e de um grande coração. Agora só fica a saudade e a dor de saber que nunca mais vou vè-lo.
Por isso digo: Nunca deixe de dizer a quem você gosta, o quanto você gosta dessa pessoa e o quanto ela é importante na sua vida Você pode ouvir um não, mas também pode ouvir um sim. Não deixe o medo tomar conta de você. Você nunca sabe o dia do amanhá, o que virá à acontecer e amanhã pode ser tarde, você pode nunca mais ver essa pessoa e viver o resto da sua vida arrependido por não ter lutado e demonstrado seus sentimentos.
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